Terapia de Casal funciona?

16 mar

Durante muito tempo, por influência das escolas originais da psicologia, como por exemplo a psicanálise, o casal era visto exclusivamente de uma perspectiva individual. Ainda que os psicólogos pudessem atender os cônjuges juntos na sessão, eram as vivências, crenças, histórias, formas de comunicar e relacionar de cada um, individualmente, que eram trabalhadas.

Foi a abordagem sistêmica familiar, dentro das psicoterapias mais modernas, que introduziu e consolidou o foco do trabalho terapêutico nas dinâmicas da conjugalidade. A forma de funcionamento do casal, seus padrões cristalizados (e não conscientes) de operar, entraram em cena. O trabalho dos terapeutas de casal ampliou-se e tornou-se ainda mais eficaz.

Já respondendo à pergunta do título, apesar de eu ser “injustamente” suspeita: SIM, A TERAPIA DE CASAL FUNCIONA. E não apenas funciona como, grande parte das vezes, resolve por completo os conflitos da relação.

Um dos maiores estudos já realizados sobre o tema é da Universidade da Califórnia e data de 2010. Durante um ano inteiro os pesquisadores acompanharam quase 150 casais em terapia. No fim do experimento, 50% deles disseram que, após iniciarem a psicoterapia de casal, a relação melhorou significativamente. Cinco anos depois a pesquisa foi refeita com os mesmos participantes e mais da metade afirmou ter superado os conflitos e viver em harmonia no casamento. Somente um quarto do total havia se separado.

No entanto, ainda hoje, a maior parte dos casais que procuram terapia conjugal o fazem como um último recurso para o casamento, depois de já terem tentado de tudo (essa é inclusive a fala de muitos que chegam no consultório). Buscam pela terapia quando a relação já está num ponto tão grande de desgaste que a própria sessão conjugal é sofrida.

Porém, aos poucos, isso vem mudando. A busca pela terapia individual, por exemplo, também sofreu vários tipos de preconceitos e resistências por parte das pessoas. Houve um tempo em que fazer terapia era quase que o mesmo que dizer a si e aos outros que se estava louco (“terapia é coisa de louco” — você já deve ter ouvido isso antes). Hoje em dia, vejo as pessoas buscando terapia “somente” para autoconhecimento, para fortalecimento emocional, autocuidado (“quero ter um tempo pra olhar pra mim”) e para prevenção de estresse. Hoje, fazer terapia, parece envolver até uma questão de status. Afinal, os artistas, celebridades, vivem fazendo propaganda gratuita da importância da terapia na vida deles. Isso, de fato, ajudou muito.

Acredito que o mesmo acontecerá com a terapia de casal. Aos poucos, os estigmas, preconceitos e as resistências vão cair. Até porque, o número de divórcios, ano a ano, não pára de subir. Hoje, aqui em Brasília, a quantidade de casais que atendo supera a terapia individual. E o mais legal é que alguns deles vieram através da procura do homem, revelando o quanto eles também já estão com um olhar mais voltado para o cuidado da relação a dois.

No próximo post vou falar um pouquinho mais sobre como a terapia de casal funciona e como ela pode ajudar. Além da minha experiência clínica atendendo casais há 15 anos, tenho pesquisado demais este tema, uma vez que ele é um dos focos do meu doutorado.

Até lá.

Escutatória

6 mar

No post de hoje compartilho um de meus textos preferidos do Rubem Alves: ESCUTATÓRIA. Costumo utilizá-lo em aulas, treinamentos, workshops e tê-lo aqui em meu blog é uma forma de fornecer também aos participantes material de leitura.

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma”.

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:
“Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”.

Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos…

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios: reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.
(Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, […]. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas.).

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades.
Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado”.

Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou”.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou”. E assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras.

A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto”.

Sobre o ouvir…

13 fev

Você já conversou com alguém que não deixa você terminar de falar? Que te interrompe a cada instante? E que quando você, enfim, consegue falar, ela sempre devolve com alguma consideração sobre ela mesma, sobre aquilo que ela fez, viveu, pensou, etc, etc: “ah, mas eu…”; “e eu…”; “eu também…”; “eu não”… sem ao menos fazer qualquer comentário sobre aquilo que vc tão genuinamente quis compartilhar.

E quando essa pessoa é você? 🙈🙉🙊

Tenho ouvido nos últimos anos, e cada vez mais, essas reclamações dos clientes. Pessoas ressentidas com a baixa qualidade do “ouvir” de seus amigos, dos cônjuges, de seus gestores, de seus pais e até de seus filhos.

O mundo corporativo hoje exige a escuta ativa e empática como competências a serem desenvolvidas pelos colaboradores, principalmente aqueles que almejam ser líderes. É, inclusive, um diferencial competitivo e são várias as ferramentas que as utilizam como base para os programas de treinamento e desenvolvimento nas empresas.

Saber ouvir é uma arte… e, na minha opinião, das mais belas. Ouvir o que está sendo dito e o que não está. Ouvir as entrelinhas, as emoções ocultas por trás das palavras. Ouvir sem julgamentos, estando o máximo presente, simplesmente atento ao outro, conectado com aquilo que ele traz.

Acredito que ouvir é um ato de acolhimento, capaz de potencializar, inclusive, a autoestima daquele que fala. Não foram poucas as vezes que ouvi de um cliente que o simples fato de se sentirem ouvidos já era suficientemente reconfortante. Por tudo isso acredito que ouvir, mas ouvir de verdade, colocando sua energia nisso, é um ato de amor.

Sou apaixonada pela arte do ouvir. Não foi à toa que escolhi essa profissão. Mas sei que não é fácil.

Para aqueles que querem (porque só funciona se querer) melhorar essa competência, o feedback e o autoconhecimento podem ajudar. Dar, receber e pedir feedback sincero sobre esse ponto específico ajuda a se conhecer e a entender o impacto do seu ouvir, e da falta dele, sobre as pessoas.

Potencializar esse pequeno (grande) aspecto da sua comunicação pode trazer uma maior satisfação para suas relações, assim como para você próprio.

2017: É ganhar ou perder?

22 jan

No início do ano é comum recebermos textos reflexivos sobre o ano que passou e sobre o que virá. Esse ano em especial recebi de amigos e colegas textos muito bons que realmente me fizeram pensar e reavaliar questões em minha vida. Se tem algo que eu realmente gosto de fazer em época de férias, além do necessário descanso e da maior conexão comigo mesma, família e amigos, é ler. Aproveito a pausa na rotina atarefada para me debruçar em novas leituras e releituras. É claro que minhas leituras sempre envolvem temas relacionados à minha área de atuação e nem consigo fugir disso, já que é o que me atrai.

Para o texto de início de ano do Blog, escolhi refletir, inspirada pelas leituras que fiz, sobre a lógica binária do ganhar ou perder. Explico. Em nossa cultura existe algo muito forte e, não totalmente consciente, que quer fazer de nós vencedores ou perdedores, pessoas de sucesso ou de fracasso, como se essas fossem as duas únicas opções possíveis para o ser-humano. Na realidade do consultório vejo o quanto isso pode ser devastador. É como se vivêssemos acreditando que para sermos vencedores na vida precisamos atingir um certo e estabelecido patamar social, cultural, relacional, intelectual, uma referência que não foi criada por nós, mas pela sociedade. Se não atingirmos esse referencial, ficamos tristes, frustrados, deprimidos, afinal, “o mundo pertence aos vencedores”.

Não existe, é claro, nada de errado em buscarmos crescer enquanto pessoa, adquirir bens, cultura, etc. A grande questão é quando isso se torna uma questão de “ganhar ou perder” muito mais do que uma questão de “ser” e quando somos movidos mais por uma referência externa (social), do que uma referência interna (aquilo que é o nosso próprio referencial de sucesso e que está alinhado com nossos valores e missão na vida).

Dentro dessa lógica binária do ganhar ou perder, a autora, PhD e pesquisadora Brené Brown observa, após 12 anos de pesquisa, o quanto está presente nas pessoas o escudo “Viking ou Vítima”. Ou se é uma vítima da vida, alguém que está sempre sendo passado pra trás, “perdendo” ou se é um viking, alguém que se mantém no controle, exerce poder sobre as coisas e nunca demonstra vulnerabilidade… e acredita que isso é ser “vencedor”. “Reduzir nossas opções de vida a papéis tão limitados e extremos deixa muito pouca esperança para transformação e mudança significativa”, ela diz.

Essa mentalidade binária pode funcionar como uma armadura que impede as pessoas de estabelecerem vínculos reais com os outros e consigo mesmas e ser causadora de muito estresse. Questionar essa visão de mundo de forma crítica é um primeiro passo na direção da mudança e da qualidade de vida emocional. Além disso, o conceito de sucesso é relativo. Reflita: o que é sucesso para VOCÊ? Para muitos, sucesso pode ser simplesmente sobreviver com dignidade em um mundo cada vez mais caótico. Para outros, pode representar realização profissional, bem estar da família, e para outros ainda pode envolver uma conquista maior de bens e status. Seja como for, ele não precisa se basear num conceito externo, mas sim naquilo que dá paz ao seu coração.

Acredito fortemente que o maior ganho que podemos ter é SER. O ganho de nos tornarmos pessoas mais humanas, mais sensíveis ao que realmente importa na vida e coerentes com nossos valores e referenciais.

Que em 2017 possamos nos conectar ainda mais com nossos valores e construir nossos próprios referenciais de sucesso e de vida.

Feliz ano novo.

O líder que muda

10 jun

Nessa semana finalizei a primeira turma do último módulo de um programa de desenvolvimento de lideres que participo há pelo menos quatro anos. O tema central deste módulo está sendo Gestão de Mudanças e também Conversas Desafiadoras e Cruciais de Gestão. Fácil pensar porque abordamos mudanças quando estamos em empresas que buscam continuar competitivas e sustentáveis no mercado, ainda mais no contexto econômico em que vivemos. Difícil é lidar com as forças restritivas que atuam em qualquer processo de mudança. O grande ponto aqui talvez seja que, enquanto líderes, para gerirmos uma mudança, precisamos acreditar nela. Sem isso, torna-se difícil influenciar aqueles que estão ao nosso redor na direção da visão que queremos seguir.

Todo líder ao longo de sua carreira enfrentará diversos momentos de mudanças, sejam elas propostas pela empresa, iniciativas dele próprio, mudanças que venham da equipe ou motivadas por um contexto maior. De certa forma, o processo de desenvolvimento do líder, por essência já é um processo de mudança.

Com essa primeira turma de líderes formada ao longo desses quatro anos pude aprender o quanto ser um líder melhor está relacionado com estar aberto às mudanças, sejam externas ou internas. Do quanto ser um líder melhor trata-se de buscar ser uma pessoa, um ser-humano, melhor. Trata-se de ganhar consciência de onde e de como se está e saber onde se quer chegar em determinado tema, desafio, situação.

Quando ministro treinamentos corporativos para líderes, geralmente meu papel principal é o de facilitar o aprendizado, as reflexões, os insights, a reciclagem do conhecimento já aprendido na experiência ao longo da carreira e de outros treinamentos. É muito gratificante ver e sentir a motivação de vida, crescimento e mudança de cada um. Acho que neste sentido, meu papel é de um privilégio incrível, pois sou eu quem mais aprendo. Digo isso pela oportunidade que tenho de conhecer, ouvir e interagir com tantas pessoas tão diferentes, tão experientes e tão dispostas a serem melhores a cada dia. Isso me inspira e me retroalimenta a seguir acreditando que vale a pena acreditar no processo de mudança do ser-humano, pois ele é real.

Solitude X Solidão

21 fev

Ontem ministrei uma palestra aqui em Brasília sobre o tema da solitude. Foi um momento para refletirmos sobre como ela pode ser uma estratégia de autocuidado, principalmente para aqueles profissionais que possuem o cuidado do outro como essência do seu trabalho. Psicólogos, médicos, enfermeiros, conselheiros, professores, padres, pastores, muitas vezes têm o cuidado de si negligenciado. Investir na solitude pode ser uma forma de aliviar as tensões do dia a dia e garantir uma maior qualidade de vida emocional.

Mas o que é “solitude”? No que ela difere da solidão?

Solitude é o momento de silêncio e privacidade voluntários onde você consegue um estado de conexão consigo mesmo. É o momento de fazer uma pausa no dia, na semana, no mês, na vida (por exemplo os períodos sabáticos cada vez mais comuns entre executivos e líderes religiosos), diminuir o ritmo interno, para se reconectar consigo. Ela difere da solidão, que é o sentir-se só estando sozinho ou mesmo acompanhado. Na solitude, estamos sozinhos, mas acompanhados de nós mesmos. Os sentimentos também diferem. A solidão é triste, negativa, a solitude é revigorante. O processo de aprender a nos relacionar conosco mesmo é gratificante por si só, gera descobertas, autoestima, e nos aproxima da nossa identidade. Pesquisadores da USP têm estudado a solitude e identificado esses benefícios.

O mundo de hoje atrai nossa atenção para tudo que é externo a nós. Na mesma medida em que estamos conectados com as agendas lotadas, tecnologias, redes sociais, aplicativos, etc, estamos desconectados de nós mesmos. A solitude permite parar para voltar ao nosso centro. Uma vez conheci uma pessoa da área da tecnologia que disse que nos finais de semana tudo que ela queria era ficar longe, desapegar, de qualquer aparelho. Ela dizia precisar disso.

Abaixo compartilho, como prometi na palestra de ontem, um texto que escrevi há anos atrás, como fruto do meu próprio processo de solitude. Hoje, esse processo se tornou essencial para que eu possa estar inteira em tudo que faço.

Minha Solitude

Solitude é reencontro. Dolorido no início, mas vital. Vital se desejamos não apenas existir, mas viver. Dolorido porque nos leva a encarar aquilo que, se pudermos, evitaremos uma vida inteira.

Solitude é conexão. Em um mundo que o tempo inteiro nos dispersa, atrai nossos sentidos e nos desconecta de nós mesmos.

Solitude é resgate de essência. E uma essência que às vezes nem sabemos qual é, e que precisa ser antes despertada e construída para então, nas solitudes, resgatada.

Solitude é autoconhecimento. É ganhar consciência sobre o que existe de mais íntimo dentro de mim. É descobrir quem sou por mim mesma e não por aquilo que esperam que eu seja. É olhar para mim além dos papéis que desempenho na vida. Solitude é identidade.

Na solitude acontece o revelar do meu oculto. O reconhecer do meu lado sombra, tornando-me livre para dele desembaraçar-me.  

Dizem que a vida passa numa fração de segundos. Se assim for, solitude é remir o tempo. E isto porque desenvolve em mim uma visão mais aguçada da vida e do seu sentido, permitindo uma maior sintonia entre meus dons, talentos e o mundo. 

Solitude é antes de tudo: ser. Ser humano. Ser real e não ideal.

Solitude é silêncio. Ficar a sós comigo mesma ouvindo somente o barulho de dentro.

Solitude é desapego. De expectativas, de ilusões, de garantias.

Solitude é auto-estima. Certificando-me de que posso ser a melhor companhia para mim mesma quando aprendo a olhar-me pelos olhos do meu Criador.

Solitude é paz. A tão desejada e mercadologicamente buscada, paz de espírito. Quando, de mãos dadas com minhas dores, fraquezas, medos e angústias, eu simplesmente prossigo.

Solitude é, em última análise, um caminho para melhor compreender os evangelhos. Ele, que nos motiva a olhar para dentro de nós, para então melhor perceber e amar o próximo.

Na vida nos perdemos o tempo todo… de nós mesmos. Partes de nós vão ficando nos caminhos que cruzamos, nas situações que vivemos, nas pessoas que nos relacionamos. A solitude é uma benção porque nos permite essa volta para o centro de nosso verdadeiro eu.

A minha solitude é reencontro. Reencontro comigo e com o Aba. Reencontro que me capacita a cumprir meu nobre chamado. Reencontro que me capacita a estar inteira em tudo que faço, a amar e a viver.

Aprender a transformar a solidão em solitude é um processo que ajuda a viver de forma mais plena.

Saindo da casa dos pais

12 fev
O post de hoje é motivado por sessões recentes que vivenciei no consultório. Alguns pacientes/clientes adultos estão justamente nesse momento de sair da casa dos pais para morar sozinhos. Esse é um momento que, se experimentado de forma consciente e reflexiva, pode trazer aprendizados significativos para a vida. Aprender a administrar uma casa e todo pacote que vem junto, emoções inclusive, aprender a administrar a própria solidão, transformando-a em solitude, pode ser mais gratificante do que a própria ansiedade gerada no processo.

Compartilho um trecho do meu livro*, publicado em 2013 pela editora NVersus, que fala um pouco desse momento….

“Podemos pensar que uma forma adequada de vivenciar o desligamento da família de origem não é afastando-se emocionalmente, mas sim renegociando as relações familiares originais. Isso significa que tanto os pais quanto os filhos precisam aprender a colocar limites nas interferências do outro, sem ficar à mercê de sentimentos de culpa. É cortar o “cordão umbilical emocional” mantendo a liberdade de ir e vir. Para Carter e McGoldrick (2001), os filhos devem ser capazes de escolher emocionalmente o que levarão da família de origem, o que deixarão para trás e o que irão construir sozinhos.

Muitos filhos saem da casa dos pais, mas a casa dos pais não sai deles. Continuam de alguma forma vinculados ao lar parental. Em relação às tarefas domésticas, por exemplo, lavam a roupa na casa dos pais, almoçam, utilizam a mesma diarista, trazem comida congelada da mãe. Acabam dessa forma diminuindo as responsabilidades sobre o novo lar e sobre si mesmos, além de possibilitarem aos pais a manutenção de um monitoramento sobre eles. Estas situações podem dificultar o estabelecimento de limites saudáveis nas relações e as necessárias ressignificações do papel da parentalidade, ou seja, do que significa ser pai e mãe de um filho adulto. Aprender a equilibrar todas essas demandas faz parte de uma vida adulta saudável.

Administrar sua própria casa depois que saiu do ninho (casa dos pais) é um treino para delimitar melhor aquilo que é seu e que é diferente do outro. É uma ótima oportunidade para conhecer mais sobre si mesmo, sobre seu jeito, seus gostos, seus desejos, sua organização, seus horários, seus relacionamentos, e lidar com as devidas consequências. Aprender a gerir a casa externa pode ser também uma forma de influenciar uma maior organização na casa interna, a emocional.

Ser adulto é desenvolver uma capacidade reflexiva independente, com opiniões próprias e embasadas. É poder definir seu planejamento de vida, suas metas, sabendo identificar o que é desejo seu e o que é dos outros; sejam estes outros os pais ou os pares. É administrar diretamente todas as áreas que envolvem sua vida.

(…)

Ser adulto é ser livre para ser quem se é e saber o que se quer ser, sem depender tanto da aprovação externa. É ter o eu preservado para poder compartilhá-lo numa relação íntima com alguém.

É ser flexível para lidar com os imprevistos e percalços da vida sabendo que no meio do caminho existem pedras (Carlos Drummond de Andrade).

É identificar as possíveis zonas de conforto pessoais e correr os riscos que existem fora delas.

É respeitar limites, de si mesmo e do próximo.

É aprender a ser autor e protagonista da própria vida.

Mas ser adulto é também saber que não se é perfeito. Que sempre existe mais um pouco a percorrer na trilha do autoconhecimento e do autodesenvolvimento. Que aprender e crescer são para sempre, enquanto viver, e que nunca se está pronto, mas em constante construção.

É ter em mente que o processo de amadurecimento não acontece de forma linear-ascendente, mas sim de forma espiral-ascendente, onde altos e baixos, avanços e recuos, são previstos, mas onde também cada baixo subsequente torna-se mais alto que o anterior, e o amadurecimento, principalmente quando existe um esforço consciente envolvido nessa direção, se torna uma realidade cada vez mais concreta.

Ser adulto é, em última instância, aprender a fazer por si o que os pais fizeram por ele, ou seja, aprender a se cuidar de forma integral e responsável enquanto viver.

O canguru é conhecido por seus grandes pulos. Sair da casa dos pais pode ser um deles, pensando na Geração Canguru. Continuar saltando rumo ao crescimento em cada área da vida é o grande desafio e ao mesmo tempo pode se tornar um grande prazer.

Após concluir o seu desenvolvimento o canguru precisa sair da bolsa da mãe. Da mesma forma, o passarinho precisa sair do ninho cheio, alçando seus próprios voos. Assim é a natureza. Para os pais, é o momento de acreditar que a tarefa da educação e cuidado já foi internalizada e os filhos são agora capazes de saltar ou, quem sabe, voar… sozinhos.”

*trecho extraído do livro “Geração Canguru – Ninho Cheio: o filho adulto morando na casa dos pais” (Mariana G Figueiredo, 2013).

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